Houve momentos de dúvida. De insegurança. De medo. Momentos em que o corpo pareceu ser um obstáculo. Momentos em que podiam ter desistido. Mas nenhuma ficou por aí. Quatro atletas, quatro histórias diferentes e uma pergunta em comum: o que as fez continuar?
A resposta não é apenas uma questão de força de vontade. Nas histórias de Patrícia Mamona, Ana Catarina Pereira, Patrícia Sampaio e Filipa Martins, há trabalho, objetivos, adaptação, apoio e, sobretudo, pessoas que ajudaram a construir confiança.
O estudo “Dove – Impacto da Confiança Corporal no Desporto” mostra como essa rede pode ser determinante. Entre as raparigas, 53% identificam a mãe como agente encorajador para continuarem no desporto e 33% apontam o pai. O estudo mostra também a importância de professores, treinadores, amigos e colegas neste processo.
Porque, por vezes, continuar não significa não ter dúvidas. Significa encontrar razões para avançar mesmo com dúvidas.
Patrícia Mamona foi quatro vezes campeã europeia em triplo salto e medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2020. Mas, pelo caminho, teve momentos de falta de confiança.
Quando começou a praticar triplo salto, ouviu que era demasiado pequena e que não tinha o corpo ideal para a modalidade. A questão, para ela, parecia simples: gostava daquele desporto e queria praticá-lo. Mas a insegurança tornou-se especialmente evidente quando chegou aos Jogos Olímpicos de 2012.
Patrícia recorda ter encontrado atletas muito mais altas e ter-se sentido deslocada naquele contexto: “De repente, senti-me extremamente intimidada, com crises de ansiedade”, conta. Durante a competição, chegou a olhar para o treinador e dizer: “Professor, não consigo saltar porque estou a tremer, o meu coração está a bater a mil. O que é que eu vou fazer?”
A competição correu mal. E Patrícia percebeu que não bastava saber que tinha capacidade física. Precisava de recuperar a confiança.
Foi aí que tomou uma decisão que considera fundamental: pedir ajuda.
“Pedi ajuda aos meus pais, à minha família, ao meu treinador, aos meus colegas de treino e, mais tarde, vim a pedir também ajuda psicológica”, admite.
Começou a trabalhar essa confiança com profissionais, com o treinador, com a família, com os colegas e também através do próprio treino.
Aos poucos, percebeu que não precisava de ser alta para conseguir os mesmos resultados que as atletas que admirava: “Posso trabalhar para ser boa. Não preciso ser alta para conseguir os mesmos resultados que elas.”
Anos depois, em Tóquio, a confiança era outra. Antes da competição, disse para si própria: “Ninguém me vai ‘bater’ hoje, hoje é o meu dia, ninguém vai tirar isso de mim.”
O resultado também foi outro: medalha de prata nos Jogos Olímpicos.

Ana Catarina Pereira já foi eleita por quatro vezes a melhor guarda-redes de futsal do mundo. Curiosamente – ou não – também ouviu que não tinha altura suficiente para desempenhar aquela função. Ainda hoje ouve comentários desse género.
Mas houve alguém que teve um papel essencial na forma como aprendeu a lidar com isso: o treinador.
Para Ana Catarina, o treinador foi “quase como um pai” e teve um papel essencial na aceitação do seu corpo.
Hoje a guarda-redes reconhece que tem um corpo “pequeno”, mas também “forte e rápido que consegue saltar na mesma”.
A história de Ana Catarina mostra também a importância de não transformar uma característica física numa sentença.

E isso é particularmente evidente na experiência de Sandra Torres, psicóloga da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), que participou na validação e adaptação científica dos conteúdos do programa Confiante no Desporto.
Num dos momentos da conversa promovida pela Dove em duas escolas, Sandra contou que, a determinada altura, percebeu que não conseguiria continuar a jogar voleibol na primeira divisão porque não tinha a altura considerada necessária para esse nível. Mas não viu essa constatação como o fim do percurso: “Achei que isto não teria que ter importância se eu quero continuar a fazer um desporto.”
A solução foi ajustar as expectativas. Passou para uma equipa de segunda divisão, onde continua a jogar: “Não vou jogar na primeira, jogo na segunda”, afirmou.
Nem sempre continuar significa insistir exatamente no mesmo caminho. Às vezes, significa encontrar outro caminho que permita manter aquilo que nos dá prazer.
O estudo Dove confirma a importância dos agentes encorajadores. Além dos pais, uma em cada duas raparigas considera que os professores de Educação Física deveriam ter um papel mais interventivo, nomeadamente em promoverem uma visão positiva das raparigas no desporto, estarem atentos a comentários negativos sobre o corpo e falarem sobre confiança corporal e autoestima.
Em contrapartida, quase metade das raparigas que desistem diz ter sido desencorajada por professores de Educação Física ou treinadores. Desta forma, o estudo deixa claro que as pessoas à volta de uma jovem podem fazer parte da razão para continuar ou, pelo contrário, para desistir.
Nas histórias das atletas, esta ideia ganha uma dimensão concreta.
Patrícia Mamona admitiu que precisou de ter coragem para admitir que estava a passar por um momento de vulnerabilidade e pedir ajuda. E sublinhou que descobrir que outra pessoa sente exatamente o mesmo pode ajudar a perceber que não está sozinha.
Ana Catarina destacou o papel do treinador e das colegas. Num desporto coletivo, essa rede pode tornar-se ainda mais importante. Na sua equipa, existe também apoio psicológico e, quando uma colega não consegue ultrapassar sozinha determinada dificuldade, as outras tentam encaminhá-la para quem pode ajudar.
Em Lisboa, a judoca Patrícia Sampaio, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos Paris 2024, descreveu outra forma de construir confiança. Reconhece que já ponderou desistir do judo ao longo da carreira, mas não foi o corpo que a fez pensar nisso.

Na relação com o próprio corpo, aliás, admite ter sido muitas vezes a sua pior crítica. “Eu já ouvi muito mais comentários negativos em relação ao meu corpo de mim própria para mim própria.”
Hoje, a relação é diferente. Sente orgulho no corpo que construiu e naquilo que ele lhe permite conquistar.
E encontrou no próprio desporto uma fonte de confiança. “A minha força exterior e a minha capacidade de levantar peso, de fazer força com o corpo, conseguiu passar para uma força mental, intelectual, psicológica.”
A estratégia que encontrou para continuar foi trabalhar com metas. Ter objetivos concretos. Escrever aquilo que queria conquistar. Nos momentos difíceis, era essa visão que a fazia avançar: “O que me movia era a motivação daquilo que eu queria conquistar.”
Para Filipa Martins, ginasta com três participações olímpicas – Rio 2016, Tóquio 2020 e Paris 2024 –, a confiança também não apareceu de um dia para o outro: “Assim como nós construímos a nossa carreira de atletas, a confiança também é algo que se constrói da mesma forma, diariamente, passo a passo.”
A ginasta fala ainda de um período particularmente difícil: a pandemia. Treinava sem saber exatamente para quê. Não havia uma competição próxima. Os Jogos Olímpicos de Tóquio tinham sido adiados. Havia a sensação de estar a trabalhar sem uma meta imediata.
Mas esse período acabou por trazer outra aprendizagem: perceber como lidar com os momentos em que as coisas não correm como esperado.
Filipa reconhece também que o seu corpo é particularmente exposto na ginástica. E recorda comentários que ouviu na adolescência. Na escola, por ser mais musculada do que muitos colegas, ouviu frases como “Tens um braço tão grande, é maior que o meu” ou “Pareces um homem”. Chegou a deixar de usar calções na escola porque se sentia demasiado volumosa.
Hoje, a sua relação com essa característica é diferente. O desporto ensinou-lhe que o corpo está sempre a mudar e que nem todos os dias nos sentimos da mesma maneira: “É normal não estarmos sempre no nosso melhor”, assegura.

E essa aprendizagem ultrapassa o desporto.
Para Sandra Torres, essa é precisamente uma das maiores potencialidades da prática desportiva: “O desporto é efetivamente uma via para nós melhorarmos a nossa relação com o corpo.” Ao perceberem que conseguem executar um movimento, melhorar uma capacidade ou ultrapassar uma dificuldade, as jovens desenvolvem um sentido de competência física que pode reforçar uma relação mais positiva com o próprio corpo.
Mas há mais. O desporto permite desenvolver resiliência, lidar com a frustração e partilhar momentos de alegria com outras pessoas. E ajuda a perceber uma coisa essencial: o corpo permite-nos fazer coisas.

As quatro atletas chegaram a lugares diferentes. Tiveram obstáculos diferentes. E construíram a confiança de maneiras diferentes.
Mas nenhuma fala de confiança como uma característica que simplesmente se tem ou não se tem.
Patrícia Sampaio diz que “a autoestima e a confiança são coisas que se constroem”. Filipa Martins fala de um processo diário, feito passo a passo. Patrícia Mamona sublinha a coragem de pedir ajuda. Ana Catarina Pereira mostra como o apoio de quem está ao lado pode mudar a relação com uma dificuldade.
E Sandra Torres lembra que o desporto pode ser uma ferramenta para essa construção.
A mensagem para uma rapariga que esteja agora a duvidar de si própria é, por isso, menos sobre ser sempre forte e mais sobre continuar a procurar aquilo que pode ajudá-la a avançar.
Para Patrícia Sampaio parte do caminho passa por “ter um sonho e acreditar muito nesse sonho.” E lembra que o corpo não deve ser visto como inimigo. “É uma ferramenta e, muitas vezes, uma das armas mais poderosas que nós temos.”
Filipa Martins admite que “se calhar sozinhos é um pouquinho mais difícil” e “com ajuda será mais fácil.”
Talvez seja essa a grande lição destas quatro histórias. Pode haver um momento em que a confiança desaparece, um comentário que magoa, uma competição que corre mal, um corpo que parece não corresponder ao que imaginávamos. Mas desistir não tem de ser a única resposta. É possível pedir ajuda, mudar a estratégia, ajustar o objetivo, encontrar uma equipa onde nos sintamos bem. É possível continuar por outro caminho.