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Representação importa: porque é que ver atletas femininas muda futuros

Menos tempo de antena significa menos referências: a representação do desporto feminino nos media influencia a permanência das raparigas no desporto.

Quando uma rapariga liga a televisão, abre um jornal desportivo ou percorre as redes sociais, aquilo que vê ajuda a definir aquilo que acredita ser possível. Se os protagonistas são quase sempre homens, a mensagem implícita torna-se difícil de ignorar: o desporto de alto nível continua a ser, sobretudo, masculino.

Esta é uma das conclusões do estudo “O Impacto da Confiança Corporal no Desporto”, desenvolvido pela Dove. Mais do que identificar as razões que levam muitas raparigas a abandonar a prática desportiva, o estudo revela que a confiança corporal também é construída através das referências que existem à sua volta. Quando faltam modelos, reconhecimento e representação, diminui também a crença de que existe espaço para elas no desporto.

Mais de metade das raparigas (55%) considera que os media e as redes sociais falam muito mais de desporto masculino do que feminino. E uma em cada duas acredita que as vitórias das atletas não recebem a mesma celebração, que os desportos praticados por mulheres são menos mostrados por serem considerados menos emocionantes e que as conversas sobre atletas femininas continuam a centrar-se demasiado na aparência física, em vez do desempenho desportivo.

Tempo de antena continua longe da igualdade

A perceção das jovens atletas encontra paralelo na realidade da cobertura mediática internacional. Apesar da evolução registada nos últimos anos, a UNESCO estima que apenas cerca de 4% a 5% do conteúdo dos media desportivos seja dedicado ao desporto feminino, mesmo quando as mulheres representam perto de 40% dos praticantes de desporto a nível mundial.

Os grandes eventos internacionais, como os Jogos Olímpicos ou os Mundiais de futebol feminino, demonstram que existe interesse do público. Ainda assim, quando termina o efeito destes momentos, a visibilidade regressa a níveis bastante inferiores aos do desporto masculino.

Ao mesmo tempo, o crescimento das audiências mostra que o problema dificilmente pode ser explicado apenas pela procura. Segundo a ONU Mulheres, a cobertura do desporto feminino praticamente triplicou desde 2019: passou de cerca de 5% para 16% e acompanhou o aumento do interesse do público, das receitas comerciais e do investimento das marcas.

Também a Reuters destaca que 2025 foi um ano histórico para o desporto feminino, com recordes de assistências, direitos televisivos e investimento em várias modalidades, o que prova que existe um mercado em crescimento quando há exposição consistente.

O jogo conta-se de forma diferente

A diferença não está apenas na quantidade de notícias. Está também na forma como elas são contadas.

Enquanto as peças sobre atletas masculinos tendem a privilegiar estatísticas, tática, liderança, preparação física ou rendimento competitivo, as notícias sobre mulheres continuam frequentemente acompanhadas por referências ao aspeto físico, à idade, à maternidade, ao vestuário ou à vida pessoal.

A UNESCO tem alertado para este fenómeno, sublinhando que as atletas continuam a ser alvo de comentários estereotipados, centrados na aparência, na família ou nos treinadores masculinos, em vez das suas conquistas desportivas.

O estudo da Dove mostra que esta diferença de narrativa não passa despercebida às jovens. Cerca de metade considera que se ouvem mais comentários sobre o corpo das atletas do que sobre o seu desempenho. Num período particularmente sensível da adolescência, em que a relação com o próprio corpo está em construção, estas mensagens ajudam a reforçar a ideia de que, para as raparigas, a aparência continua a ser tão ou mais importante do que a performance.

O impacto vai muito além da competição

A representação mediática influencia a forma como os jovens imaginam o seu futuro.

Quando uma rapariga cresce sem ver mulheres a ocupar espaço nas capas dos jornais, nos resumos televisivos ou nas campanhas publicitárias, torna-se mais difícil imaginar-se naquele lugar.

O estudo Dove demonstra precisamente essa ligação entre representação e confiança. As jovens identificam os media, as redes sociais e as marcas como agentes importantes na construção de uma visão mais positiva das raparigas no desporto. Além disso, uma em cada duas acredita que a presença de mais atletas femininas nas campanhas publicitárias poderia incentivar mais raparigas a continuar a praticar desporto.

Esta conclusão ganha especial importância quando o estudo mostra também que a confiança corporal é um dos fatores que mais contribuem para o abandono precoce da atividade física durante a adolescência. As referências visíveis não resolvem, por si só, todas as barreiras, mas ajudam a criar sentimento de pertença e identificação.

Há sinais de mudança, mas ainda insuficientes

Nos últimos anos, o panorama começou a mudar. O sucesso internacional de modalidades como o futebol, o râguebi, o basquetebol ou o atletismo feminino trouxe novas audiências, maior interesse comercial e mais investimento por parte de patrocinadores e plataformas de transmissão.

Também em Portugal, o crescimento da cobertura mediática de atletas como Patrícia Mamona, Filipa Martins, Patrícia Sampaio e Ana Catarina Pereira demonstra que existe interesse quando as histórias são contadas com continuidade e profundidade.

Mas o verdadeiro desafio continua a ser transformar exceções em normalidade. Não basta dar visibilidade durante grandes competições. É necessário acompanhar campeonatos e modalidades, contar percursos, criar ídolos e analisar desempenhos com o mesmo rigor aplicado ao desporto masculino.

Porque aquilo que os media escolhem mostrar não influencia apenas audiências. Influencia expectativas, autoestima e ambição.

Se queremos que mais raparigas permaneçam no desporto, também é preciso que elas continuem a encontrar, todos os dias, alguém com quem se identifiquem. Porque antes de acreditarem que conseguem chegar lá, precisam de ver que esse lugar também existe para elas.