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Atletas provam que a confiança também se treina

Uma em cada três raparigas desiste do desporto na adolescência, por não se sentir bem no próprio corpo. Foi para falar abertamente sobre isto que a Dove e a Medialivre levaram o programa Confiante no Desporto a duas escolas secundárias portuguesas, num formato de conversa que reuniu atletas olímpicas, uma psicóloga e uma sala cheia de adolescentes com muito para dizer.

Os números vêm de um estudo realizado pela Dove em Portugal, com jovens entre os 10 e os 17 anos, sobre o impacto da confiança corporal e da autoestima na prática desportiva. Sete em cada dez raparigas que desistem apontam a baixa confiança corporal e o desconforto associado à menstruação como os principais motivos. E uma em cada duas admite ter sido influenciada por comentários negativos sobre o seu corpo, vindos, em muitos casos, de quem devia encorajá-las a continuar incluindo professores de Educação Física e treinadores.

Sandra Torres, professora associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e parceira do projeto pela Autoestima de Dove, explica que a baixa confiança corporal é diferente da baixa autoestima, embora as duas se alimentem mutuamente. A confiança corporal tem a ver com a forma como cada pessoa se relaciona com o seu corpo, se confia nele para fazer o que quer fazer, se se sente exposta ou vulnerável quando se move à frente dos outros. A autoestima é mais abrangente: é o valor que cada um atribui a si próprio. Quando uma é baixa, tende a arrastar a outra.

O estudo veio também confirmar que o problema não é exclusivamente feminino. Um em cada quatro rapazes desiste igualmente do desporto na adolescência, com maior incidência aos 16 anos, e sete em cada dez que desistem mencionam a baixa confiança corporal como uma das razões. Sandra Torres sublinhou nos dois eventos que, nos rapazes com baixa autoestima, a probabilidade de desistir é proporcionalmente ainda maior do que nas raparigas, com uma taxa quatro vezes superior para os rapazes e duas vezes e meia para as raparigas. Quase metade dos rapazes que abandonam a atividade física refere os professores de Educação Física como origem de comentários negativos sobre o corpo.

Foi para dar resposta a esta realidade que a Dove e a Medialivre lançaram a iniciativa Mantém-te em Jogo, com o programa Confiante no Desporto, dirigido a alunos e professores de Educação Física. Em maio, o projeto chegou a duas escolas secundárias portuguesas em formato de conversa aberta: a 27 de maio, à Escola Secundária Arquiteto Oliveira Ferreira, em Vila Nova de Gaia, e a 29 de maio, à Escola Secundária D. Pedro V, em Lisboa. Em ambos os casos, o mesmo formato: uma talk com atletas de alta competição, a psicóloga do programa e a moderadora Catarina Raminhos, diante de uma plateia de alunos que, antes da conversa começar, já tinham deixado as suas mensagens e experiências de forma anónima numa caixa colocada na escola dias antes.

Bullying, menstruação e redes sociais em cima da mesa

A caixa era o elemento que tornava tudo mais real. Antes de qualquer atleta subir ao palco, os alunos já tinham depositado ali os seus desabafos, escritos em cartões anónimos. Catarina Raminhos foi lendo alguns em voz alta. “Desde que era pequena que tenho tido problemas com o meu peso. Entrei num buraco onde a balança era o meu maior medo. Hoje sinto-me cada vez mais livre.” Outro, escrito por um rapaz: “Era uma vez um rapaz que se sentia mal com o seu corpo. Um amigo muito próximo fez questão de tocar na ferida, deixando-o com inseguranças.” E ainda este: “Bastou um comentário para eu passar a usar um sorriso contido.”

Atletas provam que a confiança também se treina

Os testemunhos na primeira pessoa não ficaram apenas nos cartões, aconteceram também nos eventos. Em Vila Nova de Gaia, Gabriela, do 10.º ano do curso de Turismo, falou de bullying, de comentários sobre a roupa e o corpo, e de inseguranças que aprendeu a gerir sem as conseguir apagar de todo. Manuel, do 12.º ano, contou que saiu do futsal por causa do ambiente e dos comentários negativos, e que uma lesão no joelho no ano anterior o tinha deixado mais triste e com as notas a descer. Voltou ao desporto pelo basquetebol. “Este ano quando voltei já fiquei muito mais feliz, já me sentia muito melhor e as notas quase que, consequentemente, voltaram a aumentar”, disse.

Havia também Leonardo, 17 anos, que chegou do Brasil aos 14 e começou a jogar futebol num ambiente que descreveu como tóxico. Trabalhou em silêncio para provar que conseguia. E Caio, 13 anos, que sobe regularmente ao escalão de sub-15, mas ouve dos adversários que é fraco por ser mais pequeno. “Dou o meu melhor durante a partida e depois chego a casa e falo com a minha mãe ou com o meu pai”, disse. Ainda em Vila Nova de Gaia, um aluno de 12 anos tomou a palavra para falar da pressão que sente no ballet, modalidade onde, explicou, os rapazes raramente recebem respeito. Chamava-se Miguel.

Em Lisboa, Joana falou do desconforto de estar em palco com a barriga à mostra nas aulas de dança, e Rebeca admitiu ter deixado a natação por causa de comentários sobre o corpo que recebia ao usar fato de banho. Houve ainda Madalena, que não falou de si, mas de uma prima que nasceu com limitações motoras no lado esquerdo do corpo. Apesar dos comentários e dos olhares, a prima nunca parou: no ano anterior fazia natação, dança, fisioterapia e ginásio três vezes por semana. “Ela faz as apresentações, e ela dança e pode não fazer igual aos outros, mas ela dá o seu melhor e isso para mim é mesmo inspirador”, disse Madalena. E Maria João, que tenta jogar voleibol, mas foi excluída de um clube por ter 1,62 metros numa posição que passou a exigir 1,68 metros. “Não faz sentido nenhum”, disse, e a sala concordou.

Sandra Torres, que apresentou os dados do estudo em ambos os eventos, avisou que os comentários negativos afetam duas em cada três raparigas e um em cada quatro rapazes, e que muitos deles não chegam a ser feitos com intenção de magoar. “Muitas vezes são feitos em tom de brincadeira, ou até com o propósito de motivar, mas ouvir estes comentários pode ser o suficiente para ficarem na nossa memória e persistirem até à idade adulta”, disse. A solução que propôs é desenvolver um filtro protetor em relação a essas vozes, e perceber que os padrões de beleza são uma construção social que muda com o tempo e que não existe qualquer obrigação de cumprir.

A pressão estética não poupa as campeãs

Há uma ideia instalada de que os atletas de alta competição são pessoas naturalmente confiantes, imunes à dúvida e à pressão estética. Os quatro testemunhos ouvidos nas escolas trataram de a desfazer.

Patrícia Mamona, medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio no Triplo salto, lembrou que quando começou na modalidade, um treinador lhe disse que era demasiado baixa para competir ao mais alto nível. “Quando ganhei a minha medalha olímpica, a primeira pessoa de que me lembrei foi dele, do comentário negativo de um treinador que me disse quando comecei o triplo salto que eu nunca iria conseguir porque era muito baixinha”, contou.

O comentário ficou, mas transformou-se em combustível. O percurso até Tóquio não foi linear: nos seus primeiros Jogos, em 2012, entrou em pânico diante das atletas de 1,90 metros que admirava na televisão, teve crises de ansiedade e a competição correu mal. Pediu ajuda ao treinador, à família, mais tarde a um psicólogo. “Só o facto de ter coragem de dizer que estava com este problema foi um alívio”, disse.

A atleta olímpica revelou ainda que houve uma altura em que deixou de comer para tentar perder peso e qualificar-se para um mundial, enquanto o próprio treinador a incentivava a emagrecer. Mas quando ele percebeu o caminho que ela estava a seguir ao deixar simplesmente de comer, encaminhou-a para uma nutricionista e um psicólogo. “Percebi que o peso necessário para competir não era o menor possível, mas sim o peso ideal para eu conseguir saltar. A partir daí, o resto é história”, recordou.

Ana Catarina Pereira, guarda-redes de Futsal do Sport Lisboa e Benfica e quatro vezes eleita a melhor do mundo na posição, ouviu durante toda a carreira que era demasiado pequena para a baliza. “Ainda hoje há pessoas que vêm ter comigo e dizem: como é que alguém tão pequeno conseguiu ser a melhor do mundo?”, contou.

No Benfica, as jogadoras são pesadas semanalmente e submetidas de dois em dois meses a medições de massa gorda e muscular. Quando voltou do primeiro Mundial de futsal feminino, nas Filipinas, pesava menos dois quilos do que o habitual. “Entrei logo em parafuso. Se estou mais magra, se já sou pequena, vou ocupar menos espaço na baliza, mas se calhar estou mais rápida.” O pensamento deu depois lugar ao oposto, quando recuperou o peso.

Ana Catarina descreveu este escrutínio constante como uma luta permanente, e contou ainda um episódio em que teve de intervir para defender uma colega de equipa de comentários vindos de dentro da estrutura do clube sobre o seu peso. “Tentámos chamar quem de direito à razão, porque esse tipo de comentários pode ter interferência na parte mental, que é extremamente importante para render em campo”, explicou a guarda-redes.

Em Lisboa, Patrícia Sampaio, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 no Judo, falou de uma relação com o corpo construída de dentro para fora. Admitiu ter sido a sua pior inimiga durante a adolescência, muito mais crítica consigo própria do que qualquer voz exterior. “Eu tinha uma voz tão forte dentro de mim a julgar-me que já isso tinha peso suficiente, nem dava espaço para as vozes dos outros”, recordou.

O comentário sobre o corpo que mais a marcou foi precisamente o oposto do que se poderia esperar: a dimensão. Sempre foi do tamanho ou maior que os rapazes da turma, e nunca interpretou isso como uma crítica. “Foi sempre: ok, eu sou forte, sou maior que os rapazes. E isso sempre me deixou muito contente”, disse.

Com o tempo e com o trabalho, a relação com o corpo aprofundou-se. “O meu corpo permitiu-me conquistar muitas medalhas. A medalha pela qual eu sonhei a vida inteira, uma medalha olímpica”, afirma. Hoje orgulha-se dos seus músculos e di-lo sem hesitar. “Gosto muito quando falam dos meus braços. Trabalho muito para os ter”, conta. O que mais a move agora são os testemunhos de miúdas que entraram para o judo por a terem visto na televisão ou nas páginas dos jornais. “Perceber que consigo ser uma fonte de inspiração é o que mais me impacta e que muitas vezes me move para além dos meus próprios sonhos.”

Filipa Martins, ginasta olímpica com a melhor classificação de sempre de Portugal nos Jogos Olímpicos de 2024, pratica uma modalidade onde o corpo está permanentemente exposto e avaliado. Na adolescência, ia para a escola com músculos mais desenvolvidos do que os colegas de turma e ouvia comentários que a faziam deixar de usar calções. “Foi esconder aquilo que era o meu trabalho”, disse.

Considerou também a menstruação como um tema que devia ser falado mais abertamente no desporto, para que menos raparigas abandonem a modalidade por algo que é natural e que pode ser gerido. Na ginástica, disse, “estamos um bocadinho mais expostas e muitas das vezes quando acontece a primeira vez, não sabemos como lidar.”

Aprender a lidar com esta e outras situações inerentes ao desporto de alta competição depende muito da rede de apoio que as atletas têm ao seu dispor. No caso de Filipa, quem a ajudou a chegar onde chegou foram os treinadores, que descreveu como segundos pais, “as pessoas que acreditaram em mim, se calhar desde quando eu não era ninguém ainda na modalidade.” Foi essa crença que a levou até onde chegou, e a resposta sobre o que o corpo lhe deu foi curta e inspiradora: “Voar. O meu corpo permitiu-me voar.”

Fazer as pazes com o próprio corpo

A moderadora das duas talks nas escolas, Catarina Raminhos, conhece o tema por dentro. É um assunto que lhe diz muito, explicou, porque “a questão da falta de confiança e da autoestima foi sempre a minha mochila, a mochila que eu carreguei às costas. Tive de arranjar mecanismos para trabalhar. Psicoterapia, psiquiatria em algumas fases.” Disse que sabe o impacto negativo que a baixa autoestima pode ter, “tudo aquilo que me fez não viver”, e que o trabalho para chegar a um lugar de maior liberdade foi longo. “Eu já podia antes, só que achava que não.” E acaba por ser essa a mensagem que quis deixar aos jovens que assistiram às talks. “Espero que os alunos destas conversas levem a ideia de que se quiserem, podem. Se quiserem fazer ballet, mesmo que lhes digam que não têm um corpo de ballet, podem fazer ballet e devem fazer ballet se isso os faz felizes”, disse.

Sobre as redes sociais, Catarina questionou a naturalidade com que se usam os filtros que suavizam a pele, a inteligência artificial que altera feições, as imagens irreais que bombardeiam os jovens de todos os lados. “Porque é que nós não assumimos a pele que temos, com as falhas que tem?”, perguntou. A resposta vai ao encontro do projeto: porque ainda não temos ferramentas suficientes para nos proteger daquilo que vemos. E porque essas ferramentas se constroem, e a adolescência é o momento certo para começar.

Foi essa a mensagem que ficou das duas manhãs, dita de formas diferentes por todas as vozes presentes. A psicóloga Sandra Torres resumiu-a afirmando que a confiança corporal pode ser trabalhada, a autoestima pode ser desenvolvida, e a faixa etária em que estes jovens se encontram é simultaneamente a de maior risco e a de maior potencial de mudança.

Já Patrícia Mamona deixou um repto a quem estava do lado da plateia: “Acreditem muito em vocês, que tenham muita confiança, porque o futuro é risonho, o futuro é vosso, e que sonhem muito alto.” Ana Catarina Pereira lembrou que as adversidades existem, mas que são elas que transformam, e Filipa Martins apelou a que pedissem ajuda quando precisassem, porque sozinhos é mais difícil. Patrícia Sampaio pediu que fizessem as pazes com o próprio corpo, porque ele é uma ferramenta e não um inimigo, e que quando o perceberem, disse, “vai dar-vos um poder sobrenatural.”

Do lado da plateia, as respostas foram à altura. Em Lisboa, uma aluna chamada Vitória disse que tem problemas de autoestima e que não tem vergonha de o assumir, porque muitas raparigas devem sentir o mesmo. “É normal, é legítimo”, afirmou acrescentando que o importante é saber lidar. Em Vila Nova de Gaia, o Miguel, de 12 anos, que faz ballet e ouve comentários sobre ser rapaz numa modalidade associada às raparigas, respondeu que se der atenção aos comentários negativos, eles vão deixá-lo mais marcado e com mais vontade de desistir. Por isso, não dá importância.

Se as atletas que subiram a pódios olímpicos assumem que também duvidaram do próprio corpo, que pediram ajuda e que a confiança se construiu ao longo de anos, levando-as a alcançar sonhos e medalhas, os jovens que saíram destas duas salas levam pelo menos uma certeza: o jogo continua, e podem jogá-lo.

Em paralelo com estes dois eventos, a marca Dove, em conjunto com a EPIS, parceira do Projeto Pela Autoestima, lançou o programa Confiante no Desporto em formato webinar, que contou com 150 professores inscritos, distribuídos por cinco sessões decorridas entre abril e junho. Trata-se de um curso de curta duração, certificado, gratuito e online, que atribui créditos e prepara professores de educação física com ferramentas para promoverem a confiança corporal dos alunos na prática desportiva.

A esta missão juntou-se também a Confederação de Treinadores, com uma formação dedicada a treinadores de várias modalidades, com o objetivo de fazer chegar esta mensagem a todos os jovens atletas e apoiá-los a manterem-se no desporto. Um compromisso que reforça a importância de promover ambientes desportivos mais inclusivos e que inspirem confiança.