“És muito baixa.” “És muito grande.” “Fica-te mal.” Algumas destas frases foram ditas por colegas. Outras por treinadores. Outras são comentários que, mesmo quando parecem uma simples observação, podem marcar para sempre quem os ouve.
“És muito baixa. Nunca vais ser atleta de alta competição.” Esta frase veio de um treinador. Anos depois, quando ganhou a primeira medalha olímpica, foi precisamente esse comentário que Patrícia Mamona recordou. Há frases que, para o bem ou para o mal, duram mais do que o momento em que foram ditas.
E, no desporto, algumas podem ficar associadas à forma como uma jovem olha para o próprio corpo durante muito tempo.
Um comentário pode até parecer inofensivo para quem o faz. Mas não é para quem o ouve. O estudo realizado pela Dove sobre o “Impacto da Confiança Corporal no Desporto” mostra a dimensão deste problema: duas em cada três raparigas já foram criticadas pelo seu corpo no contexto desportivo. Entre as que abandonam o desporto, 41% dizem já ter sido alvo de críticas, gozo ou bullying por causa do tamanho do corpo ou do peso. E 38% referem já lhes ter sido dito que não tinham o corpo certo para praticar determinado desporto.
De acordo com as psicólogas Sandra Torres, Raquel Barbosa e Filipa Vieira, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), que participaram na validação e adaptação científica do estudo realizado pela Dove, “os comentários que as raparigas mais ouvem sobre o corpo estão frequentemente relacionados com o peso, a forma corporal e a aparência”. Além disso, surgem também as “comparações, como, por exemplo, ‘és a mais baixa da turma’, e avaliações sobre atratividade ou sobre o que é considerado ‘feminino’”. Um pormenor relevante destacado pelas psicólogas é o facto de “comentários aparentemente positivos, como ‘estás muito mais bonita desde que emagreceste’, podem transmitir a ideia de que o corpo está constantemente a ser observado e avaliado”.
Quatro vezes campeã europeia em triplo salto e medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2020, Patrícia Mamona recorda um comentário que ouviu quando começou a praticar a modalidade: “Quando ganhei a primeira medalha olímpica, a primeira coisa de que me lembrei foi de um comentário de um treinador que, quando comecei, me disse que eu nunca ia ser atleta de alta competição porque era ‘muito baixinha’. Feliz ou infelizmente, esse comentário motivou-me”, conta no final das conversas promovidas pela Dove, numa escola em Vila Nova de Gaia, no âmbito do projeto “Mantém-te em Jogo”, que tem como objetivo combater o abandono do desporto na adolescência devido a problemas de autoestima e imagem corporal.
Apesar de este comentário ter funcionado como motivação para a atleta, a verdade é que Patrícia Mamona reconhece que nunca desapareceu da memória: “Foi algo que esteve sempre muito presente”.

Uma frase pode marcar uma vida inteira e nem sempre a reação de quem a ouve passa por transformá-la em força para continuar.
Inês, de 12 anos, estudante em Vila Nova de Gaia, já praticou patinagem, ballet, dança e taekwondo. Foi nesta última modalidade que sentiu maior preconceito, por ser um desporto habitualmente mais associado aos rapazes. Recorda comentários de colegas que procuravam estabelecer uma relação entre o tamanho do corpo e a capacidade para praticar desporto.
“Esses comentários fazem com que se desista muito mais rapidamente, porque até nós próprios ficamos com esses pensamentos. Começamos a pensar ‘tu és mesmo assim’ e muitas vezes isso não é verdade nenhuma. Muitas vezes as pessoas fazem um comentário e dizem ‘ela nem vai pensar nisso…’, mas fica.”
É precisamente essa permanência que torna estes comentários particularmente relevantes durante a adolescência. Não se trata apenas do que é dito no momento, mas da possibilidade de uma frase passar a fazer parte da forma como alguém se vê.
Miguel, de 12 anos, é estudante em Vila Nova de Gaia e também conhece esse tipo de pressão. Pratica ballet e conta que, nesta modalidade, já ouviu comentários relacionados com o seu corpo e com aquilo que os outros consideram que consegue ou não consegue fazer.
“Pratico desporto, faço ballet, e, nesta área, devido ao meu corpo, há muita gente que nos critica, à base de ‘és assim, por isso não consegues fazer aquilo’.”
Para Miguel, existe ainda outro tipo de julgamento: “Às vezes nós somos rebaixados, também porque este desporto é mais de raparigas e muita gente não mostra respeito em relação aos rapazes que praticam esta modalidade.”

Os exemplos mostram que os comentários sobre o corpo podem assumir formas diferentes. Podem estar relacionados com o peso, a altura ou a aparência, mas também com ideias pré-concebidas sobre o corpo que é suposto ter quem pratica determinada modalidade.
Para as psicólogas Sandra Torres, Raquel Barbosa e Filipa Vieira, a adolescência é uma fase particularmente sensível. É um período em que aumenta a atenção ao corpo e ao olhar dos outros, ao mesmo tempo que acontecem mudanças físicas associadas à puberdade.
Segundo as psicólogas, “os comentários sobre o corpo podem ser difíceis de esquecer porque a imagem corporal é uma dimensão relevante da identidade”, em particular durante a adolescência. Nesta fase, “a aparência e a aceitação social assumem particular importância”. Como tal, explicam, “um comentário, mesmo que isolado, pode fazer ‘eco’ porque pode reforçar numa insegurança já existente e passar a influenciar a forma como a rapariga se vê”, contribuindo “para a vergonha e o desconforto com a própria aparência”. Este impacto pode manifestar-se de muitas formas no dia a dia, desde deixar de vestir determinadas roupas, tirar fotografias ou evitar determinadas atividades como ir à praia e praticar desporto.
As especialistas explicam que, quando existe uma forte preocupação com os ideais de beleza, podem surgir pensamentos e sentimentos negativos em relação ao corpo e uma tendência para evitar situações em que este fica mais exposto. No desporto, essa exposição é particularmente relevante, seja através da roupa, do movimento ou da presença perante os outros.
O problema não é apenas ouvir uma crítica. É aquilo que ela pode desencadear.
Segundo o estudo realizado pela Dove sobre o “Impacto da Confiança Corporal no Desporto”, as conversas sobre o corpo podem tornar as raparigas hiperconscientes da sua aparência, dificultar a concentração na prática desportiva e contribuir para uma perceção mais negativa de si próprias. Podem também fragilizar a confiança corporal e a autoestima e contribuir para o abandono da prática desportiva.

E há uma particularidade importante: nem sempre os comentários são assumidamente agressivos. Podem ser subtis. Podem estar normalizados. Podem até ser apresentados como elogios. Ainda assim, podem ter impacto.
As psicólogas resumem a consequência de forma clara: “Quando o foco deixa de estar no prazer, no movimento ou na competência e passa a estar na aparência e no julgamento social, o desporto passa a ser vivido como um espaço de ansiedade e embaraço, aumentando o risco de desistência.”
É também por isso que uma frase aparentemente inofensiva pode não ser inofensiva para quem a recebe.
Os comentários sobre o corpo podem também assumir outra forma: dizer a alguém que determinadas características físicas determinam aquilo que pode ou não pode fazer.
Maria João, aluna em Lisboa, tentou entrar num clube de voleibol, mas encontrou precisamente esse obstáculo: “Eu gosto muito de voleibol e tentei entrar num clube, mas, por causa da minha altura, não consegui. A altura era 1,60 metros para a posição de líbero, mas, infelizmente, agora passou para 1,68 metros”.
Duarte, estudante em Vila Nova de Gaia, identifica uma situação semelhante no futebol. Na sua equipa, explica, a altura pode determinar as oportunidades de um guarda-redes, mesmo quando existe rendimento desportivo.
“Eu acho que é um problema também que deve ser resolvido. Se o guarda-redes tem rendimento, não devia ser a altura a impedir. Mas mesmo com rendimento, o meu colega não tem hipótese porque não tem altura.”

Não significa que as características físicas sejam irrelevantes para todas as modalidades. Mas existe uma diferença entre reconhecer as exigências de determinado desporto e fazer uma jovem ou um jovem acreditar que o seu corpo determina, à partida, aquilo que é capaz de alcançar.
Os comentários podem vir de colegas. De amigos. De familiares. De professores. De treinadores. O estudo Dove mostra que uma em cada duas raparigas que abandona o desporto identifica professores de Educação Física e treinadores como principais agentes responsáveis pelas conversas sobre o corpo. Entre as raparigas que desistem, as colegas também assumem um peso significativo nestas conversas.
“Entre amigas e colegas, estes comentários surgem com frequência disfarçados de comparações e brincadeiras” e “ganham mais força, uma vez que a identidade e a necessidade de pertença assumem um papel muito importante na adolescência”. Além das colegas, “a família é outra fonte comum destes comentários, ainda que surjam, na maioria das vezes, com intenção protetora ou educativa, ligada a hábitos alimentares ou de saúde. Já no contexto desportivo, é frequente que treinadores e professores de Educação Física comentem o corpo das jovens atletas, por vezes com o objetivo de orientar o desempenho ou a adequação a determinada modalidade. Mas quando se sugere que ‘este corpo é melhor para este desporto e não para outro’, abre-se espaço para inseguranças que podem afastar as raparigas da atividade física”, explicam as psicólogas.
O papel dos adultos torna-se, por isso, particularmente importante.
Sandra Torres explica que pais, professores e treinadores devem valorizar aquilo que os jovens conseguem fazer, o esforço e a aprendizagem, em vez de centrar a atenção na aparência. “É valorizar os filhos ou os atletas pelo que eles conseguem fazer, pelo esforço que empreendem na aprendizagem dos movimentos e no treino desportivo, e menos na sua aparência.”
A confiança corporal, explica a psicóloga, passa por uma relação segura com o próprio corpo e pela confiança de que este permite fazer aquilo que queremos.
E existe uma diferença fundamental entre dizer a uma jovem como deve parecer e mostrar-lhe aquilo que é capaz de fazer.
“Os adultos de referência, pais, professores e treinadores, têm um papel central como modelos, uma vez que os seus comentários e atitudes em relação ao próprio corpo e ao corpo dos outros são frequentemente replicados pelas crianças e adolescentes. Uma boa forma de substituir os comentários sobre a aparência é deslocar a atenção para aquilo que o nosso corpo é capaz de fazer e experienciar. Elogiar o esforço, a coragem, a dedicação, a atitude, o sentido de humor ou uma conquista concreta transmite reconhecimento sem reforçar a ideia de que o valor de alguém depende da sua aparência física, ajudando a construir relações mais saudáveis com o corpo e com os outros”, exemplificam as psicólogas.
A judoca Patrícia Sampaio, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos Paris 2024 e que recentemente conquistou a medalha de bronze na categoria de -78 kg do Grand Slam de Lausanne, na Suíça, desde cedo ouviu que era “muito grande” e “forte”: “Desde sempre foi comentado o facto de eu ser muito grande, maior do que os rapazes da minha turma e muito maior do que a raparigas. Eu nunca entendi no sentido pejorativo. Sempre entendi: ‘Ok, boa, eu sou forte’.”
Ainda hoje, admite, gosta de ouvir certos comentários sobre o corpo: “Gosto quando falam nos meus músculos porque trabalho muito para tê-los”. No entanto, o que valoriza mais é quando algumas meninas lhe dizem que foram para o judo por vê-la lutar: “Dizem-me que eu sou uma inspiração porque viram-me a lutar, na televisão ou uma fotografia no jornal. São os comentários que mais têm impacto e mais me orgulham”, assegura.

Filipa Martins, ginasta com três participações olímpicas – Rio 2016, Tóquio 2020 e Paris 2024 –, assegura que o corpo lhe permitiu “voar”: “O meu corpo permitiu-me voar e chegar a um patamar que nunca imaginei, tanto de exercícios como na ginástica. Fez-me também acreditar que todos temos sonhos diferentes, mas que, independentemente disso, todos podemos atingir o sucesso”.
Quanto aos comentários, acredita que o facto de ter passado uma infância e adolescência “a brincar na rua” fez com que ficasse “longe de ecrãs e redes sociais” onde, muitas vezes, se encontram as observações mais negativas. Recorda-se de ter ouvido dizer, muitas vezes, que é “resiliente”, no entanto, ressalva que, por vezes, os comentários supostamente positivos ditos no momento errado também podem ter impacto: “Quando tudo corre bem é fácil haver comentários positivos, mas o oposto também acontece”, afirma.

A diferença está naquilo que o comentário reforça. Um pode dizer: o teu corpo não corresponde ao esperado. Outro pode dizer: o teu corpo permite-te fazer coisas extraordinárias.
O impacto das palavras não depende apenas de quem as diz. Também depende do ambiente que existe à volta de quem as ouve.
Outra estudante em Vila Nova de Gaia reconhece que já passou por uma situação semelhante por causa da altura. Mas destaca também a importância de não deixar que a opinião dos outros determine a forma como cada pessoa se vê.
“O que nós estivemos aqui a falar acontece muito, já aconteceu comigo, por causa da minha altura. Há muita gente que desiste, não só porque lhe dizem isso, mas também porque acham que não conseguem. Não acreditam em si próprias. Eu diria a todas as raparigas para acreditarem nelas próprias, porque nem sempre o que os outros dizem é a realidade. Muitas vezes acontece dizerem coisas más aos outros por não terem autoconfiança.”

Raul, estudante em Vila Nova de Gaia, pratica voleibol e conhece a pressão que pode existir quando os jogadores não correspondem ao padrão físico mais valorizado na modalidade.
“Pratico voleibol e, obviamente, nesta modalidade a altura é muito importante também. A nossa equipa divide-se muito, porque temos jogadores muito altos e jogadores que não são assim tão altos, e nota-se que existe uma pressão sob esses jogadores. Têm menos tempo de jogo, menos oportunidades, e já vi muita gente a desistir por causa disso.”
Mas Raul encontrou outra resposta: “Eu não desisto, porque adoro mesmo o desporto. Ultrapassa-se, com trabalho de equipa, ao apoiarmo-nos uns aos outros.”
Para as psicólogas da FPCEUP, criar um ambiente seguro significa reduzir os comentários centrados na aparência, evitar comparações e valorizar o esforço, o prazer, a competência e a inclusão. Pais, professores e treinadores podem contribuir para esse ambiente.
Existem ainda algumas estratégias para os jovens se protegerem destes comentários, nomeadamente criar um “distanciamento crítico”, de forma a separar o que é o comentário do “valor pessoal”, explicam. Embora admitam que pode ser difícil, é possível “ser trabalhado através do apoio de figuras de referência que ajudem a reinterpretar estes episódios, reduzindo o risco de se transformarem numa crença negativa persistente sobre o próprio corpo”. Outra estratégia passa por “regular a exposição a conteúdos que promovem a comparação constante com corpos idealizados e estereotipados, sobretudo através de um uso mais crítico e seletivo das plataformas digitais”. No entanto, alertam, “quando o impacto destes comentários é intenso, persistente ou começa a condicionar comportamentos como a alimentação, o convívio social ou a participação em atividades, torna-se importante procurar apoio psicológico especializado”.
A própria Dove propõe a criação de “zonas livres de conversas sobre o corpo”: espaços onde este tipo de comentários seja evitado e, quando surge, seja desafiado ou neutralizado. A proposta passa por um compromisso entre colegas e atletas, com um papel ativo de professores de Educação Física, treinadores e encarregados de educação.

Para as raparigas, a marca recomenda ainda reconhecer estas conversas, desafiá-las e refletir sobre aquilo que o corpo é capaz de fazer, sentir e alcançar através do desporto.
Porque talvez seja essa a mudança mais importante.
Trocar “Estás muito gorda” por “Olha para o que já conseguiste.”
Trocar “És demasiado baixa” por “Vamos descobrir aquilo que consegues fazer.”
Trocar a avaliação da aparência pelo reconhecimento do esforço.
E trocar a pergunta “Como é que o teu corpo parece?” por outra muito mais importante: “O que é que o teu corpo consegue fazer?”
As palavras podem deixar marcas. Mas também podem deixar ferramentas para continuar.
Raul encontrou no apoio da equipa uma razão para continuar. E Miguel deixa outra ideia: quando os comentários negativos ganham força, podem até dar “mais força para desistirmos”.
É também por isso que a mudança não passa apenas por escolher melhor as palavras. Passa por criar ambientes onde cada jovem possa descobrir aquilo que o seu corpo é capaz de fazer, sem sentir que precisa primeiro de corresponder a uma determinada aparência.