É um dos primeiros lugares onde o corpo deixa de ser neutro. Entre mudanças de roupa, comparações e comentários, o balneário pode tornar-se um espaço onde se ganha – ou perde – confiança.
Há uma parte do desporto que acontece longe do campo, da pista ou da piscina. É o momento antes e depois do treino, quando se troca de roupa, conversa, brinca e observa os outros. O balneário pode parecer um espaço secundário, mas é onde, muitas vezes, o corpo passa a ser alvo de comparação, avaliação e julgamento.
O estudo “Dove Confiante no Desporto – Impacto da Confiança Corporal e Autoestima na Prática Desportiva na População Feminina Jovem” mostra que o ambiente social e os comentários têm um impacto direto na relação das raparigas com o desporto. Entre as que abandonam a prática desportiva, 49% apontam o medo do julgamento dos outros, 38% referem críticas ou serem alvo de piadas e 23% indicam terem sido alvo de discriminação de género.
São números que ajudam a olhar para o balneário de outra forma: não apenas como um lugar de passagem, mas como um espaço onde também se constrói – ou fragiliza – a confiança corporal.
“Aquilo que acontece no balneário nem sempre é visto pelos adultos”, explica Joana Gomes, responsável de marketing de Dove Portugal, que o considera um “espaço invisível”. Apesar de fazer parte da experiência desportiva de muitas raparigas, é um local onde podem surgir observações, comparações e comentários sobre o corpo que afetam a confiança e a autoestima.
No entanto, a pressão relacionada com a aparência física não fica à porta do balneário. O problema ganha outra dimensão quando se percebe que estas situações não são casos isolados e que se estendem a diferentes momentos da prática desportiva.
Segundo o estudo Dove, uma em cada duas raparigas que desistem do desporto identifica os professores de Educação Física e treinadores como principais agentes responsáveis pelas conversas sobre o corpo.
E há ainda outro dado revelador: duas em cada três raparigas sofrem críticas ao corpo no contexto desportivo. Estudos Dove alertam que estas conversas podem dificultar a concentração na prática desportiva e contribuir para uma perceção mais negativa do próprio corpo.
Alguns comentários podem ser aparentemente inofensivos. “Estas conversas e comentários são, muitas vezes, subtis e normalizados”, explica a responsável de marketing de Dove Portugal. Podem até assumir a forma de elogios relacionados com a aparência física, mas continuam a poder fragilizar a confiança corporal e a autoestima.
O balneário pode ser um dos primeiros lugares onde uma adolescente sente que o seu corpo está verdadeiramente exposto ao olhar dos outros. Quem é mais alta? Quem é mais baixa? Quem é mais magra? Quem parece encaixar melhor no equipamento? A comparação pode deslocar o foco daquilo que o corpo consegue fazer para a forma como é visto.
Foi uma realidade que Catarina Raminhos, autora, criadora de conteúdos e moderadora das conversas promovidas pela Dove nas escolas, encontrou nos testemunhos dos jovens. “Eu gostava que ouvissem mais sobre aquilo que são capazes e não sobre como se parecem”, afirmou. Para Catarina Raminhos, a conversa deve centrar-se nas “competências, nas capacidades e nos talentos” de cada jovem.
A própria Catarina Raminhos conhece esse processo. “Eu comecei a perceber que o meu corpo era um problema e não a máquina incrível que hoje acho que é”, contou, recordando uma adolescência marcada pela comparação com referências de beleza que sentia estarem muito distantes da sua realidade. Explicou ainda que começou a trabalhar a autoestima por volta dos 12 ou 13 anos.

Os testemunhos recolhidos nas escolas, no âmbito das conversas promovidas pela Dove com o objetivo de promover a confiança corporal e combater o abandono precoce da prática desportiva entre os jovens, mostram como estas questões se manifestam no dia-a-dia.
Joana, estudante em Lisboa, identificou-se com as histórias de jovens que deixam o desporto por diferentes razões e falou também da relação com a sua imagem corporal. “Eu tenho problemas de autoestima com a minha barriga”, revelou, explicando que, quando dança e está em palco, pode sentir-se desconfortável com a exposição dessa parte do corpo.
Mas Joana também encontrou um contexto que a ajuda a contrariar essa insegurança – as aulas de Educação Física. “Dão-me mais confiança, sobretudo por causa da professora, porque ela acredita em mim e dá-me sempre estratégias para melhorar o meu desempenho”, relata.
Já Rebeca, estudante em Lisboa, relatou uma experiência semelhante na natação. “Eu identifiquei-me com muitas histórias que ouvi, principalmente quando estava na natação. Fez-me lembrar alguns comentários negativos que recebi sobre o meu corpo devido ao uso de fato de banho.” Rebeca confidenciou que, na altura, acabou mesmo por desistir de praticar a modalidade “devido a uma série de comentários”.
Hoje tem uma relação diferente com a Educação Física: “Os erros não importam, o que importa é que eu estou a tentar e a melhorar cada vez mais”, afirmou.
Para Gabriela, estudante no Porto, uma das maiores consequências dos comentários é o tempo que permanecem na memória. “Existem sempre comentários que não gostamos. Dizemos que vamos tentar ignorar, mas ficam sempre dentro da nossa cabeça”, explicou a propósito de experiências de bullying e comentários sobre a roupa, o cabelo e o corpo.
O apoio de pessoas próximas ajudou-a a lidar com essas situações e recordou algumas dessas palavras de incentivo: “Tu és bonita do jeito que és. Todos nós temos o corpo diferente uns dos outros.” Para Gabriela, professores, pais e amigos podem ter um papel fundamental neste processo.
Manuel, estudante no Porto, encontrou no basquetebol um ambiente diferente daquele que tinha vivido no futsal. Contou que deixou o futsal porque não se sentia integrado na equipa e era confrontado com comentários negativos. No basquetebol, sente-se mais feliz e considera que os colegas e treinadores são fundamentais: “Tanto os treinadores como os colegas de equipa têm um papel indispensável para o ambiente, para termos vontade de ir lá todos os dias.”

Um comentário pode durar segundos. O impacto emocional pode prolongar-se muito para além daquele momento.
Dove explica, através de estudos, que as conversas sobre o corpo podem ter consequências na imagem corporal, na autoestima, na saúde mental e no bem-estar, mesmo quando acontecem durante apenas alguns minutos.
Catarina Raminhos reconhece esse impacto a partir da própria experiência. “A questão da falta de confiança e da falta de autoestima foi sempre a mochila que carreguei às costas”, afirmou. O trabalho desenvolvido ao longo dos anos permitiu-lhe sentir-se hoje “uma mulher livre” para fazer aquilo que quer.
A autora e criadora de conteúdos defende também que os adultos precisam de escutar melhor os jovens. “Muitas vezes os adultos subestimam aquilo que os jovens estão a sentir, passar ou viver”, afirmou, defendendo uma maior disponibilidade para ouvir e compreender essas experiências.
A resposta, sugerida pela equipa Dove, passa por criar “zonas livres de conversas sobre o corpo”: espaços onde se evitem conversas centradas na aparência física e onde esses comportamentos sejam desafiados ou neutralizados quando surgem. A marca defende que este deve ser um compromisso entre colegas e atletas, promovido por professores de Educação Física e treinadores, nas escolas e nos clubes, com o envolvimento dos encarregados de educação.
Dove sugere também uma ferramenta simples: criar cartazes com exemplos de comentários sobre o corpo e possíveis respostas que permitam contrariá-los de forma construtiva. O programa propõe ainda ajudar as atletas a reconhecer estas conversas, a desafiá-las e a refletir sobre aquilo que o corpo é capaz de fazer e experienciar.
A ideia é mudar o centro da conversa. Menos aparência, mais funcionalidade. Menos comparação, mais capacidade. Menos julgamento, mais incentivo.
E os próprios jovens reconhecem o papel dos adultos. João, estudante entrevistado no Porto, defende que os professores devem “encorajar muito os alunos”, porque estão “lá para ajudar e para acreditar neles”.
Catarina Raminhos deixou uma mensagem igualmente direta aos jovens: “Se quiserem, podem.” E acrescentou: “O que é isso de um corpo perfeito? Não existe.”
Porque o balneário pode ser um lugar onde o corpo se sente exposto. Mas também pode ser o lugar onde uma rapariga ou um rapaz percebem que não precisam de ter o corpo “certo” para fazerem desporto.
Precisam, antes de tudo, de acreditar naquilo que esse corpo é capaz de fazer.